Bate-papo Independente com Saudade Azevedo

Iniciamos neste domingo, 17, a nossa coluna “Bate-papo Independente”, que será publicada todos os domingos, com diversas personalidades do Estado.

E inauguramos em grande estilo, com a atual Secretária de Saúde de Mossoró, Saudade Azevedo.

Figura de grande evidência no cenário atual, Saudade vem se destacando pela luta incansável e agora nos brinda com essa entrevista exclusiva.

Maria da Saudade Azevedo é natural de Mossoró e tem graduação em enfermagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). É especialista em Saúde Pública. Servidora pública municipal da Prefeitura de Natal, ela trabalhou com coordenação de projetos no Estado e no Município.

Saudade é também reconhecida pela implantação do Complexo Estadual de Regulação e da Central Metropolitana de Regulação do Sistema Único de Saúde, também trabalhou 13 anos como auditora. Exerceu a função de secretária-adjunta de Atenção Integral à Saúde e secretária titular da Secretaria Municipal de Saúde de Natal, exercendo atualmente a titularidade da Secretaria Municipal de Saúde de Mossoró.

Iniciamos nossa entrevista, por razões lógicas, tratando de coronavírus.

– Saudade, estamos vendo um cerne de medidas adotadas pelo município de Mossoró. Questiono se já são suficientes, o e o que mais pode ser feito.

– Primeiramente gostaria de agradecer pelo convite e por ter sido escolhida para estrear este espaço no site. Desde o começo do ano, quando tomamos conhecimento do novo coronavírus, estamos trabalhando para combater a doença na cidade. Algumas pessoas nos viram como pessimistas, naquele momento, porque iniciamos discussões para construção de um plano de contingência contra o coronavírus. Lembro bem que algumas pessoas vieram até mim e disseram que essa doença não chegaria em Mossoró e que estávamos nos preocupando demais. Não demorou muito e a doença se espalhou pelo mundo. No fim de fevereiro para o começo de março já tínhamos um plano de contingência pronto, graças a um trabalho coletivo engajado, que foi aprovado pelo Conselho de Municipal de Saúde no dia 16 de março. Esse plano contém as diretrizes e estratégias que o Município definiu para tentar frear a doença na cidade. Durante esse tempo capacitamos servidores, nos reunimos diversas vezes para discutir fluxos, buscamos parcerias com diversas entidades, estudamos muito para buscar fazer mais com o pouco que temos. A prefeita Rosalba Ciarlini, como médica, preocupada com a situação da cidade, criou um comitê de crise do coronavírus para que todas as decisões que fossem tomadas neste momento fossem de acordo com critérios técnicos. Esse comitê é composto por secretários municipais e outros servidores. A prefeita nos dá total autonomia de trabalho e está constantemente em contato comigo.

– Então você avalia positivamente todo o trabalho realizado até o momento?

A Prefeitura de Mossoró, na minha opinião, vem fazendo um trabalho com determinação na cidade, tendo o reconhecimento da população. Nós estamos diariamente nas ruas orientando as pessoas sobre a doença, fiscalizações, abertura de abrigo para moradores de rua, limpeza e desinfecção dos espaços públicos, distribuindo máscaras, fazendo barreiras sanitárias nas BRs e RNs que dão acesso a cidade. Fomos, se não a primeira, uma das primeiras cidades a colocar um hospital de campanha para funcionar. Estamos com nossas Unidades de Saúde abertas e com protocolos de atendimentos. Quem é de Mossoró sabe que a Prefeitura está fazendo o possível e o melhor para salvar vidas.

Questionei a Saudade sobre as medidas anunciadas pelo Governo Federal e pelo Estadual, para saber o que efetivamente chegou a Mossoró.

– O Governo Federal enviou recursos a Mossoró para ajudar no combate ao coronavírus. Enviou também testes rápidos para agilizarmos nos diagnósticos e termos uma noção mais real da pandemia na cidade. Nós precisamos que o Estado chegue mais junto conosco não só de Mossoró, mas da região como um todo. Mossoró faz parte do RN e ainda somos município polo, chegando a atender cerca de 1 milhão de pessoas se considerarmos as regiões Oeste, Costa Branca e Vale do Assu. Mossoró não pode ficar sozinha nessa luta. Juntos nós podemos ser mais fortes. É preciso deixar questões políticas de lado. O partido do momento é salvar vidas.

– E como está a situação de leitos na cidade? O quadro atual é suficiente para garantir um mínimo de segurança à população?

– Se a gente fosse responsável somente por atender pessoas da cidade não teríamos, pelo menos neste momento, problemas com lotação em leitos de UTI. Mas atendemos além de Mossoró outras regiões. Atualmente temos 57 leitos de UTI exclusivos para o novo coronavírus na rede pública e privada. Sendo 41 públicos e 16 privados. Temos 87 leitos clínicos, sendo o maior número deles, 35, na Unidade Hospitalar de Campanha do Belo Horizonte, custeado exclusivamente pela Prefeitura de Mossoró. Inclusive nossa Unidade de Campanha é de baixo custo, pagamos cerca de 17 mil no aluguel de containers mensalmente, podendo chegar a uma média de mais de R$ 100 mil por mês incluindo profissionais e insumos.

A governadora Fátima Bezerra garantiu a prefeita Rosalba Ciarlini, no dia 30 de março, em reunião por vídeo conferência, na qual eu também participei, que abriria 170 leitos em Mossoró. Estamos juntos com o governo estadual tentando abrir todos esses leitos. Recentemente o Governo do Estado disse que iria abrir 10 leitos de UTI no HRTM até sábado (16). Depois fiquei sabendo que esse número passou para cinco leitos e os outros cinco seriam em nova data. Se eles realmente forem abertos até sábado, vamos passar a contar com 62 leitos de UTI na cidade.

– Então considerando que Mossoró abriga diversas cidades do oeste com leitos, se faz cada dia mais urgente que se instalem os leitos prometidos pelo Estado, estou correto?

– Técnicos da Vigilância em Saúde me apresentaram um relatório na qual aponta que, em números acumulados de hospitalizações do dia 18 de março a 14 de maio, 36,4% das internações em Mossoró foram de pessoas de outras cidades. O que significa dizer que de 269 pessoas hospitalizadas nesse período 98 eram de fora. Esse número tem aumentado gradativamente. É um dado significativo e que reforça a necessidade do cumprimento dos 170 leitos que foram prometidos para Mossoró. Das mortes em Mossoró por coronavírus, nenhuma foi por falta de UTI, mas pela complicação da doença em si. Cada um precisa fazer sua parte. Todos nós sabemos o que deve ser feito, como usar máscara, só sair se necessário, manter o isolamento social e o distanciamento social, lavar as mãos com água e sabão, utilizar álcool gel. Precisamos fazer o que tem de ser feito. Se todos adoecerem de uma vez, nosso sistema de saúde não vai suportar. Aliás, nenhum sistema de saúde do mundo aguentaria.

– Diante do quadro, Saudade, eu reitero: como você avalia a atuação do Governo do RN para Mossoró em combate ao COVID?

Acho que apesar da boa vontade de acertar, o governo do Estado demorou a tomar medidas mais eficazes e eficientes. Por vezes foram decisões frágeis, anunciadas de forma precipitada, o que fragiliza mais ainda a difícil situação enfrentada por todos. Isso gerou muita desconfiança da população e insatisfação por parte dos gestores municipais. Se é uma doença nova sem muitas informações, as decisões precisam ser tomadas com maior segurança. Nesse momento não dá para dar um passo à frente e dois para trás. O momento é de serenidade, de passos firmes e sempre em frente.

– Secretária, vou fugir um pouco do assunto sobre o coronavírus, agora. E sobre o sistema de saúde municipal no geral. Como você avalia a situação encontrada ao tomar posse no cargo, e as melhorias conseguidas até então? Pode citar as principais?

Cada gestor tem um perfil e organiza a equipe de trabalho à sua maneira. Assim que cheguei na Secretaria de Saúde de Mossoró conheci os profissionais e busquei implementar coisas que já vinha pensando. Uma das primeiras, que deu muito certo, foi o projeto Família em Foco. A ideia era ofertar os atendimentos médicos que ocorriam durante a semana na UBS somando com o apoio de outros parceiros em um dia do fim semana, a cada 15 dias, sendo realizado tanto na zona urbana quanto na rural. No ano passado fizemos cerca de 30 mil procedimentos atendendo todas as zonas da cidade.

Nós compramos e entregamos fardamento e EPIs aos agentes de saúde e de endemias e SAMU. Os agentes estavam, segundo eles me disseram, há mais de seis anos sem reposição desse fardamento e EPI. Conseguimos quatro novas ambulâncias para reforçar a frota do SAMU através de emendas parlamentares e Ministério da Saúde que fomos atrás. Uma van para o Programa de Acessibilidade Especial de Mossoró (PRAEM) e a correção de vencimentos das 40 horas das equipes de Estratégia de Saúde da Família, uma luta de 12 anos da categoria.

Reduzimos casos confirmados de Dengue, Zica e Chikungunya e mantemos essa batalha constante. Melhoramos indicadores de saúde como um todo, desde mortalidade materna até cobertura de vacinação. Entregamos equipamentos e materiais permanentes às UPAs e UBSs. Temos 14 unidades sendo reformadas, cinco UBSs sendo construídas mais um Centro Especializada em Reabilitação que será um marco na gestão da nossa prefeita. Reorganizamos entrega das insulinas e em breve teremos um novo espaço para atender os insulinos dependentes. Abrimos o laboratório da UPA do Alto de São Manoel. Instituímos no âmbito do município a Política de Práticas Integrativas e Complementares. São muitas ações, muitas obras na saúde, muito trabalho.

Em continuidade ao tema, a Secretária foi enfática:

Problemas temos e reconhecemos, mas temos feito o possível para garantir mais e melhor a assistência a nossa população. Não podemos parar. Estamos com um projeto de informatização das nossas Unidades Básicas. Até setembro estaremos com 100% das unidades informatizadas, além de um concurso público para o Município que deveria já ter sido publicado o edital, mas em virtude da pandemia teve que ser adiado.

– Mudando um pouco o panorama, e apesar de não ser época ainda, mas estamos em um período eleitoral, e Mossoró sempre foi uma cidade que gosta de respirar política. A senhora tem interesse ou pensa, hoje ou futuramente, em adentrar no ramo político, como candidata?

– Nunca pensei sobre esse assunto. Eu sempre me orgulhei em ser uma técnica dedicada, gosto do que faço e faço com amor. Apesar de Mossoró respirar política esse não é o melhor momento. Agora é hora de concentrar as forças e trabalharmos todos juntos sem partidarismos para vencermos essa batalha.

– Saudade, sua figura, para todos que conhecem seu trabalho, é de uma forte defensora do Sistema Único de Saúde (SUS). De onde vem essa vontade de tanto batalhar pela saúde pública?

– Eu me apaixonei pelo SUS desde muito cedo. Acredito que esse seja o melhor Sistema de Saúde do mundo e a maior conquista do povo brasileiro. Temos a presença do SUS em tudo. Desde a comida que comemos até o perfume que usamos. Temos o maior sistema de imunização do mundo, de transplantes e distribuição de medicamentos. Desafios teremos sempre, mas são eles que nos alimentam em busca dessa maior e melhor qualidade que queremos para todos. Desse SUS único, igualitário e equânime. Nada é mais democrático num território que um equipamento de saúde.

– Para encerrar, poderia deixar uma mensagem a todos os nossos leitores?

Quero novamente agradecer o espaço, e a mensagem que deixo é: fique em casa, por mim e por você e viva o SUS.

O bate-papo com Saudade Azevedo foi sensacional. De um conhecimento sobre saúde pública brilhante, com garra e coragem, a secretária enfrenta talvez a mais dura missão de sua carreira, e desejamos cada dia mais sucesso! O prazer foi nosso com sua colaboração.

Próximo domingo teremos mais uma entrevista no Bate-papo Independente!

Um comentário em “Bate-papo Independente com Saudade Azevedo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao Topo